sábado, 3 de março de 2012

Sobre Assalto.



Sinceramente, por ser pobre e ser acostumada a encarar a vida dura do jeito que é, eu achava que síndrome do pânico e depressão era doença de gente ryca e fresca. Bom, depressão eu não tô vivendo mas, não vou te mentir, que eu to há uns dois dias vivendo uma amostra grátis de Síndrome do Pânico.
Tudo começou quando eu fui marcar minha TERCEIRA prova de motorista na auto-escola. Já tinha ido umas três outras vezes e sempre o sistema do Detran tava fora do ar ( se você vai tirar carteira de motorista, acostume-se com isso). Tentei marcar a prova de novo e o sistema estava fora do ar mais uma vez.  Saindo de lá, eu fui para casa da minha amiga Ru porque íamos comprar um bolo no supermercado pra vender na igreja.  Bom, cheguei na casa dela de boa na lagoa esperei ela se arrumar, pegamos nosso Money e fomos pro Mateus.

Estávamos alegremente conversando quando dobramos a esquina da casa dela. Podia ser só uma dobrada de esquina qualquer, mas não, essa foi A dobrada de esquina. Porque no começo dessa fatídica rua veio vindo ele: O LADRÃO.  Ru ainda comentou assim: “ó, estilo as mina pira mano” e eu dei aquela minha gargalhada característica. Até que, no meio da gargalhada,  ele, O LADRAO, que estava de bicicleta veio na nossa direção e de tão nervoso ele perdeu o equilíbrio da bicicleta e caiu com as duas mãos no chão.  Levantou cambaleante, olhou pra gente e disse: “ o celular, o celular “. Eu fiquei parada tentando entender o que tava acontecendo, porque ele caiu e minha primeira reação foi ajuda-lo a se levantar. Pensei que fosse algum “as mina pira mano” do bem, até ele falar isso. Ruana rapidamente falou: “ Eu não tenho celular cara” . Eu, mais otária, peguei meu celular de ultima geração comprado num camelô em Fortaleza, ou seja, era um daqueles da china e falei: “ó cara, o meu é ching ling”. E ainda falei sorrindo, de tão nervosa que eu tava. Quando eu viro pro lado, só escuto o “slep slep” do chinelo da minha amiga batendo no asfalto: essa doida começou a correr. Claro, que nessa hora as minhas pernas estavam mais pesadas do que chumbo e eu fiz uma força sobre-humana pra conseguir correr até a casa dela. A adrenalina foi tanta que ela conseguiu abrir o portão pesado em 0,00003 segundos. Ufa, conseguimos correr do ladrão.  Olhamos uma para outra e o silêncio era total. Só se ouvia as respirações ofegantes. Caramba, quase nos levaram tudo.

Entramos em casa e ficamos esperando nosso coração desacelerar. Isso durou uma hora. Tomamos água, rimos da situação, legal, íamos ter história pra contar pros netos ( se eles quiserem ouvir) , massa brother e talz. Ok, agora que tudo passou, vamos voltar pro supermercado por um caminho mais movimentado. É, vamos! Dessa vez, deixamos a bolsa em casa e só levamos uma sacola ( que para variar ainda tava com meu $$ da prova da auto escola e o vestido da minha amiga Catunda, eu ainda ia ter que pagar o vestido se o “as mina pira mano” roubasse a sacola e desse o vestido pra piriguete dele, rapaz !). Mas sim,  saímos que nem duas mendigas ( eu sai mais mendiga que de costume)  e   já estávamos no meio do caminho do supermercado de novo quando a gente avista DE NOVO o mesmo “as mina pira mano” num canto cheio de mato esperando sabe-se lá Deus o quê.
O sorriso rapidamente saiu do meu rosto dando lugar a uma expressão de incrível terror e pânico.  A nossa frente na rua, tinham duas mulheres que já estavam se aproximando dele. Quando a gente viu, eu, discreta como sempre gritei: “CUUIDAAAAAAAAAAAAAAAAADO, ELE É UM LADRÃAAAAAAO!”. Ai as duas mulheres, eu e Ruana começamos a correr que nem quatro loucas.
*musica de suspense* Eu tava correndo com um desespero incontrolável, corria que nem uma gazela doida, meu Deus, o dinheiro da prova de motorista, o dinheiro do bolo, quando que eu vou fazer a prova de motorista de novo se eles me roubarem? Aonde eu vou achar outro vestido pra Catunda? Ela vai me odiar! O bolo, o bolo ! meu tim beta, NAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAO.  “ As mina pira”  porque tu quer me roubar? Eu sou preta, do cabelo ruim e tô de havaiana cara, nem tenho cara de mina rica, porquêêêê? * musica de suspense desligada *

O ruim é que a rua tava toda deserta e o “as mina pira” tinha a vantagem de estar de bicicleta e eu só tinha as forças dos meus dois gravetos que eu apelidei de perna.  As casas estavam todas fechadas “ e agora, quem poderá nos salvar?”. Quando menos se espanta, uma senhora abriu o portão pra filha dela entrar e eu e Ruana quase invadimos a casa dela. Aquela senhora era uma santa, naquele momento. Ela de primeira ficou sobressaltada bem pensando que nós que eramos as assaltantes.  Até explicarmos pra ela que estávamos fugindo e ainda conseguir uma carona com um vizinho dela legal que nos deixou perto de casa.

Não vou mentir que aqueles segundos que eu tava correndo tudo se passou pela minha cabeça. Caramba, eu fiquei com medo de o “as mina pira” tá armado e dar um tiro nas nossas costas. Eu não sei  o que eu pensei na hora que eu  comecei a correr, dizem que isso não se deve fazer. O instinto de sobrevivência sempre fala mais alto. Eu ia morrer logo agora, que eu ia pra faculdade? Tu é louco, fiquei muito revoltada.  Não, eu não ia deixar.

E sabe o que eu pensei mais? Que pô, beleza, ele deve pra me roubando porque provavelmente não teve condições de ter uma casa, uma família, uma vida digna. Na realidade ele tava me roubando não porque ele gostava de roubar mas, porque, provavelmente, foi a única forma de que ele arranjou de arranjar o sustento dele. O que me deixa revoltada é que isso tudo é culpa do governo. É clichê dizer mas, cara, nós trabalhamos feito condenados para pagar esses impostos e tem gente na rua assaltando os outros pra roubar um celular bicho? Fala sério. Um celular é 200 reais. Eu sei que pra muitos  200 reais é muito dinheiro( para mim também é) , mas vendo assim, é um item barato, não é alto luxo não. Agora, eu tô com medo de qualquer pessoa que ande de bicicleta perto de mim. Se tiver boné eu já acho que vai vir me roubar. E isso porque? Porque o governo não tem vergonha na cara e contrata policiais pra fazer ronda. Não investe em educação para esse povo. Eu sei que alguém vai dizer: Ah Ju, só que eles deveriam era estudar em vez de tá roubando os outros, sempre tem uma opção. De fato, eu acredito que sempre há uma opção. Que sempre tem um jeito de tu vencer na vida sem precisar machucar ou roubar alguém para isso. Mas não se esqueça: é muito fácil falar. Dificil deve ser estudar passando fome, com barulho de carro de som de Reggae na porta da tua casa ( coisa que acontece frequentemente nas periferias) , com pai batendo na mãe,  com um monte de irmão chorando, com pernilongo te mordendo. Eu sei que dá, sempre dá. Mas para uma pessoa atingir um grau de consciência pra saber “ Ah não, tenho que estudar pra ganhar dinheiro “ nessas condições é algo muito difícil. Primeiro porque os pais não tem essa consciência já que provavelmente não tiveram uma educação de qualidade. Segundo porque os professores das escolas que deveriam implantar essa consciência da cabeça desses alunos vivem em condições precárias pelos baixos salários oferecidos nas escolas públicas em que trabalham e vivem constantemente de greve. Sinceramente, a culpa de ter um “as mina pira” ,na minha frívola opinião, continua sendo do governo que não oferece infraestrutura necessária  para que essas crianças fruto dessas casas dessas periferias possam se desenvolver.  Isso me causa uma revolta imensa, imensa mesmo !  Imensa por mim, que agora tenho medo  e imensa por eles que tem que arriscar levar uma surra na rua para ter dinheiro para comer ou usar drogas.

É mano, a mina pira num assalto.

Beijão, ju

3 comentários:

Marília disse...

Ow, Jú. Triste realidade :/ Mas eu ri no começo :)

Beijo! http://ferreirama.blogspot.com/

Marília disse...

Ahh, eu percebi que tu sempre muda de layout. Tu não quer que eu te ajude a encontrar um definitivo? Sei lidar um pouco com html e afins, posso montar um banner simples, nada muito "enfeitado".

Qualquer coisa, estamos aí :)

Juliana Martins disse...

CAAAAAAAAAAAAAAARA, EU SUPER QUERO.

Eu to muito dramática, muito polêmica. Vou voltar a ser só engraçada rs

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